Comprar ou não comprar (mais roupas), eis a questão

Compro ou não? Essa pode ser a primeira e grande pergunta que milhares de pessoas fazem quando se deparam com uma peça de roupa que a encara de forma fugaz e oferecida em lojas espalhadas por todo o planeta, com suas “araras de promoção” ou suas cintilantes vitrines devidamente montadas em corredores de shoppings.

“Eu preciso ou quero?” Talvez essa pergunta possa provocar uma avaliação mais assertiva diante de tamanha provocação ao consumo de uma roupa nova. Eu particularmente gosto de camisas de cor sólidas (na maioria branca, preta, azul clara), mas já me vi tropeçando na perdição de comprar (e comprei) camisas coloridas. Confesso que depois terminei passando para frente aquelas camisas “tropicais”.

De um tempo para cá me pego reavaliando o consumo de roupas e chego à conclusão de que eu não preciso de mais roupas, mas as quero. De todo modo me apego à clareza de que não preciso de mais peças abarrotando a minha mente.

Fui fazer o dever de casa de jornalista e trago aqui dados que revelam que de todas as roupas do mundo, cerca de apenas 1% é reciclado, de acordo com o estudo Fios da moda: perspectiva sistêmica para circularidade, elaborado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) com a Modefica.

O documento apresenta uma análise detalhada da indústria têxtil brasileira sob a ótica da economia circular, com foco nas fibras de algodão, poliéster e viscose.

Apoiado pela Laudes Foundation, o relatório critica a lentidão da transição para a circularidade, destacando os altos impactos ambientais e sociais do setor têxtil, como a emissão de 2,1 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa globalmente em 2018.

Utilizando a metodologia de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), o estudo avalia os pontos críticos dessas três fibras, como o alto consumo de água e pesticidas no cultivo do algodão, e a dependência de combustíveis fósseis para o poliéster.

A Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) é uma técnica desenvolvida para mensuração dos possíveis impactos ambientais causados como resultado da fabricação e utilização de determinado produto ou serviço.

O estudo Fios da moda: perspectiva sistêmica para circularidade, explora alternativas como o algodão agroecológico e o poliéster de garrafas PET recicladas, apesar de identificar lacunas críticas de dados públicos sobre resíduos têxteis e ACV nacionais.

O contexto apresentado pelo estudo da FGV/Modifica propõe um modelo de moda circular contextualizado ao Sul Global, com recomendações para atores como varejistas e tecelagens, enfatizando a urgência de transparência e rastreabilidade nas cadeias produtivas e a inclusão de atores informais, como cooperativas de reciclagem.

Esses dados me levam a parar imediatamente e refletir sobre os impactos do nosso consumo no meio ambiente. Existe uma lógica do mercado de vestuário que promove o fast fashion, que é um modelo de produção de moda que se baseia em alimentar continuamente uma enxurrada de roupas de custo mais baixo para provocar nos consumidores o desejo de terem seus guarda-roupas atualizado com as tendências da moda.

O problema é que o modelo de fast fashion se mostra completamente incompatível com os princípios que permeiam relatórios que visam conscientizar a sociedade sobre o desperdício, a exploração excessiva de recursos naturais e os impactos ambientais negativos em escala global.

Um estudo de 2019, da União Europeia, intitulado “Impacto ambiental da indústria têxtil e de vestuário — O que os consumidores precisam saber”, mostra que uma única lavagem de vestuário de poliéster resulta numa descarga de 700 mil fibras de microplásticos que podem entrar para a cadeia alimentar.

De acordo com o estudo “Moda e economia circular – mergulho profundo”, da Fundação Ellen McArthur, a produção de artigos de moda dobrou nos últimos 15 anos em todo o mundo. Essa tendência já deu para perceber que segue frenética. Basta observar as lojas, a cada semana existem novas peças, novas tendências. Para se ter uma ideia, segundo a  Fundação Ellen McArthur, cerca de um caminhão de lixo cheio de roupas é queimado ou enviado para aterros a cada minuto. Isso é suficiente para encher mais de um prédio de 100 andares por dia de roupas descartadas.

Não é de hoje que documentos elaborados a partir de estudos alertam a comunidade internacional para os erros do consumo excessivo. Em 1987, o relatório intitulado “Nosso Futuro Comum — Relatório de Brundtland”, publicado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, liderada pela ex-primeira ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, estampava o conceito de desenvolvimento sustentável como “aquele que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazerem as suas”.

O Relatório Brundtland, embora não trate diretamente sobre moda, denuncia dois grandes obstáculos à sustentabilidade: a pobreza extrema nos países em desenvolvimento e o consumo excessivo nos países ricos. E claro, há quase 40 anos o relatório já propunha ações globais para equilibrar crescimento econômico, justiça social e preservação ambiental. Cenário nada diferente dos dias atuais.

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