O sonho de ter um hospital que ofereça um atendimento digno aos convalescentes, em uma cidade onde a saúde pública é um verdadeiro calvário para os mais pobres, continua distante. O uso das metáforas “sonho” e “calvário” não é por acaso: em Osasco, muitos cidadãos aguardam atendimento com fé e paciência, mas a realidade é cruel — a espera por um especialista pode durar de dois a três anos, mesmo em situações urgentes.
Para compreender a gravidade do cenário da saúde em Osasco, basta percorrer a Avenida Getúlio Vargas, nas proximidades do Sesi Piratininga. É impossível não se questionar: “Onde está o Hospital da Criança e da Mulher?” ou “Por que o Hospital da Criança e da Mulher ainda não está em funcionamento?”. Essas indagações certamente já foram feitas por todos que passam por aquela região, refletindo a frustração de uma população que clama por atendimento digno e eficiente.
Além disso, o projeto é apresentado como a implantação de um hospital voltado exclusivamente à saúde infantil, contemplando ambulatório, unidades de internação e atendimento de emergência. No entanto, há divergências significativas entre as informações exibidas na placa da obra e aquelas disponíveis no site oficial da Prefeitura de Osasco.
Segundo a placa instalada no canteiro de obras, o valor estimado para a construção é de R$ 17.624.138,47, com início previsto em abril de 2021 e conclusão programada para março de 2022 — dados que não coincidem com os divulgados oficialmente pelo município. Ao analisarmos registros e vídeos de períodos anteriores, constatamos que as obras do Hospital da Criança e da Mulher tiveram início em 6 de agosto de 2018.
Até o momento, não houve qualquer entrega da obra, tampouco há no local uma placa informando a real previsão de conclusão. Além disso, o espaço não apresenta cronograma visível nem orientações sobre como acompanhar o andamento dos trabalhos, o que acaba criando um cenário favorável à desinformação.
Restringir o acesso aos canais de informação parece ter se tornado uma prática recorrente em diversas administrações municipais. Em Osasco, a carência de orientações sobre como acessar os conteúdos disponíveis na internet, somada à falta de transparência e às constantes inconsistências nos sites oficiais, faz com que essa questão se repita de forma preocupante.
No entanto, por meio de algumas pesquisas, conseguimos localizar o site “Visão 360 Osasco” — uma plataforma administrada pelo Poder Executivo — que, surpreendentemente, indica como previsão de conclusão das obras o 2º quadrimestre de 2025[1], ou seja, entre os meses de maio e agosto de 2025. O site também apresenta como meta a ampliação da rede de cuidados em saúde, com o propósito de assegurar um atendimento integral e humanizado nas especialidades, na assistência hospitalar e na rede de pronto-atendimento. Essa informação, porém, contradiz a previsão indicada na placa instalada no canteiro da obra.
O fato é que já estamos em novembro de 2025 e, até o momento, permanece um silêncio absoluto diante da questão que muitos munícipes se fazem: “Quando o Hospital da Criança será finalmente inaugurado e entregue à população?”
É de conhecimento público que a construção deste hospital foi uma das promessas de campanha do ex-prefeito Rogério Lins. O tema, por sua relevância, também foi incorporado e reeditado no discurso eleitoral do atual prefeito, Gerson Pessoa, constando inclusive em seu Plano de Governo:
A saúde pública é um direito fundamental e a essência do bem-estar de uma comunidade, refletindo o compromisso de um governo com os seus cidadãos. Para nós, a saúde pública é uma prioridade absoluta. Não a vemos apenas como a ausência de doença, mas como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, alcançando por meio da integração de ações de cuidado e assistência, educação, segurança alimentar, hábitos de vida saudáveis, saneamento básico e outras medidas articuladas.
Nos últimos anos Osasco alcançou novos patamares da Saúde Pública, foram entregues projetos como ampliações e reformas em diversas Unidades Básicas de Saúde (UBS), proporcionando ambientes mais adequados e confortáveis para os atendimentos, implantação do Centro Especializado em Reabilitação (CER II) para pessoas com deficiência, um novo Centro de Diagnósticos com exames de imagem, construção do Hospital da Criança, entre outros. (…)
Para o futuro, o principal objetivo é assegurar que os cidadãos de Osasco tenham acesso a um sistema de saúde de qualidade, eficiente e humanizado. Para isso, é primordial investir em tecnologia, contratação e capacitação de profissionais de saúde e na construção de novas unidades de atendimento, garantindo uma cobertura ampla e eficaz. Além disso, é importante priorizar a redução das filas de espera e aumentar a capacidade de atendimento, garantindo que todos os cidadãos recebam os cuidados necessários no tempo certo. (…)[2]
Assim, retomamos a metáfora do sonho de um hospital que, originalmente concebido como um equipamento público essencial para aprimorar a qualidade de vida de crianças e mulheres do nosso município, acabou se tornando um verdadeiro pesadelo. A esperança foi substituída pela frustração diante de uma obra pública repetidamente adiada e ainda inacabada, que obriga os cidadãos — especialmente mulheres e crianças — a uma peregrinação em busca de atendimento de saúde, uma jornada que mais se assemelha a um calvário para quem depende das políticas públicas.
Essa realidade não diz respeito à fé, à esperança ou à devoção, mas à falta de transparência, honestidade e comprometimento na implementação de políticas públicas eficazes, capazes de realmente transformar a vida das pessoas em nossa cidade.
Foto: Gregorio Murilo S. C.



