Por quê a prefeitura de Osasco destrói a cultura e a memória da cidade?

A resposta é vergonhosa: por ignorância e desrespeito dos gestores que deveriam cuidar dos bens culturais do município. O que causa enorme indignação em quem conheceu o apogeu da produção artística e cultural da cidade, quando ela era pobre, em relação aos dias de hoje.

Você sabia que a maioria dos poucos espaços culturais de Osasco que ainda sobrevivem, está fechada há mais de 5 anos e meio e sem atividades, sucateada e sem previsão de serem reformadas ou restauradas e devolvidas à população? Embora o município seja o sétimo mais rico do país e o segundo do estado de São Paulo, perdendo em produção de riquezas para a capital paulistana?

Pois assim é.

Não é dinheiro, o que falta para mudar esse cenário revoltante. É o mais absoluto descaso com a própria história da cidade, que vai se perdendo para ceder importantes espaços de memória para a mais desenfreada especulação imobiliária. Que engole referências históricas e culturais em troca de lucros para poucos e de aumento de arrecadação para os cofres do município. Dinheiro que ninguém sabe para onde vai. Mas toda vez que alguém cobra qualquer das “autoridades” sobre o abandono ao patrimônio cultural da cidade, a resposta é uma só: não há recursos.

Há vários exemplos gritantes que podem ilustrar esse cenário de devastação cultural.

Chalé Brícola, sede do Museu Municipal de Osasco. (Avenida dos Autonomistas, 4001)

É o caso mais escandaloso e incompreensível. Trata-se da última construção do Século 19 em Osasco. Um belíssimo imóvel construído por Antônio Agú, o fundador da cidade, para ser a casa de campo da família de Giovanni Brícola: um importante banqueiro italiano que morava em São Paulo.

Ali, por exemplo, foi projetado e montado o primeiro avião brasileiro: o Aeroplano São Paulo. Também foi do Chalé Brícola que Dimitri Sensaud de Lavaud, construtor daquele avião, decolou para fazer o Primeiro Voo do Brasil e da América Latina, em 07.01.1910.

Desde 30.06.1976 o imóvel passou a ser sede do Museu Municipal da cidade. Entretanto, há cinco anos e meio está fechado e abandonado, em deterioração, correndo sérios riscos até de desabar, apagando uma história incrível que as  últimas “administrações” da cidade não valorizam.  Chegou ao extremo de ser interditado pela Defesa Civil desde abril de 2017. Até hoje a “restauração urgente” não foi realizada.

E o museu?

O que restou dele está recolhido a uma sala da Secretaria da Cultura, escondido para ninguém ver .

Casa de Angola. (Avenida Visconde de Nova Granada, 531)

Outra barbaridade.

Trata-se de um espaço construído para ser um Centro Cultural destinado à manifestação da cultura Afrodescendente. Inaugurado em 2004, celebraria os laços culturais que unem Brasil e Angola, o país africano de onde veio o maior continente de escravizados que por mais de 300 anos ajudaram a construir a sociedade brasileira e a riqueza das elites nacionais, no vergonhoso ciclo da escravidão.

Feito numa proposta de reconstituir a arquitetura tradicional das antigas aldeias africanas, a Casa é formada por duas “ocas”, ligadas por um vão central destinado à realização de eventos culturais. E foram inúmeros os que aconteceram ali. O último em dezembro de 2022.

Foi deixada em completo abandono e desde fevereiro de 2023 está interditada pela Defesa Civil do município. Perdeu completamente sua cobertura de piaçava e agora a prefeitura quer substituí-la por telhas francesas – o que descaracterizará completamente esse valioso PATRIMÔNIO CULTURAL ÚNICO NO BRASIL. Existem apenas duas Casas de Angola no país. A outra fica em Salvador, Bahia, em um sobrado tombado como patrimônio histórico nacional. Mas apenas a de Osasco tem características típicas daquele país.

Nela havia um rico acervo cultural, com artefatos e vestes sacerdotais das religiões de matriz africana, além de livros com literatura e história daquele país. Estão encaixotados, fora do alcance da população que poderia desfrutar desse patrimônio cultural. Lamentável.

O Movimento em Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Osasco (Modephac) luta pela preservação e devolução desses patrimônios culturais à população da cidade, mas a prefeitura segue apenas repetindo que não tem recursos para isso.

Foto: Gregorio Murilo S. C.

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