As mulheres não estão seguras nem na casa mais vigiada do Brasil

Esse texto não é sobre mulheres, esse texto nem é para as mulheres, até porque, já estamos cansadas de repetir o discurso sobre violência, sobre feminicídio, sobre machismo e o patriarcado. Hoje meu texto é para vocês, homens, gostaria de alguns minutos da sua atenção.

O episódio exibido recentemente no Big Brother Brasil, em que uma participante precisou reagir a uma tentativa de invasão física por um homem, não deve ser tratado como um desvio individual nem como um simples excesso em um programa de entretenimento. O que se viu ali foi a exposição, em horário nobre, de uma dinâmica profundamente enraizada na sociedade brasileira: a naturalização da invasão do corpo feminino.

O local é irrelevante. Poderia ter sido uma dispensa televisionada, um elevador, um ônibus, uma festa ou a própria casa. O que se repete não é o cenário, mas o comportamento, e, sobretudo, a autorização social, homens não “confundem sinais”: eles ignoram limites e depois aleguem confusão quando são confrontados.

Para nós, nada disso é novidade. Desde cedo, aprendemos a calcular riscos, a ajustar trajetos, horários, roupas e palavras. A vigilância constante não é paranoia: é sobrevivência. O espanto que surgiu após a exibição do episódio veio majoritariamente de homens que só reconhecem a violência quando ela é explícita, gravada e mediada pelo espetáculo. Mas e você? Quantas vezes você já forçou a barra quando teve uma recusa de uma garota que estava afim?

Quantas vezes viu seus amigos na balada assediando corpos femininos e achou graça e, mesmo incomodado com a atitude do seu camarada, não fez nada para não contrariar o modus operandi da sociedade patriarcal?

Não adianta postar texto na internet de revolta, se no contexto social suas atitudes não condizem com o que é correto.

Os dados confirmam o que a experiência cotidiana já revela. O Brasil segue registrando índices alarmantes de violência de gênero e feminicídio, com crescimento consistente nos últimos anos. A maioria das mulheres assassinadas é morta por homens com quem mantinha ou manteve vínculo afetivo. Ainda assim, o debate público insiste em deslocar o foco do agressor para a vítima, questionando comportamentos e intenções, enquanto relativiza atos de violência como “mal-entendidos”.

Esse deslocamento não é acidental. Ele faz parte de uma estrutura que protege reputações masculinas antes de garantir a integridade feminina. Individualizam-se casos, apontam-se exceções, mas preserva-se o sistema que produz a violência como regra.

Esse cenário se torna ainda mais perigoso com a expansão de movimentos masculinistas como o red pill, que não passam de uma reorganização contemporânea do ódio às mulheres. Disfarçados de “desenvolvimento pessoal”, esses discursos promovem a ideia de superioridade masculina, tratam mulheres como recursos a serem dominados e transformam frustração em ressentimento político. Ao negar a autonomia feminina e demonizar o consentimento, essas comunidades ensinam homens a interpretar limites como afronta e rejeição como humilhação a ser punida. O resultado não é apenas violência simbólica, mas a legitimação cotidiana de práticas abusivas, invasões físicas e agressões reais. Não se trata de opinião ou liberdade de expressão: trata-se de uma fábrica ideológica que normaliza a violência contra mulheres e reforça a lógica patriarcal de controle sobre seus corpos.

Há vários debates ocorrendo nas redes sociais, e por incrível que pareça, há quem tenha coragem de se expor para defender o abusador.

O reality show não criou o problema. Apenas o tornou visível. O incômodo gerado não decorre de exagero, mas do reconhecimento, ainda que involuntário, de práticas amplamente toleradas fora das câmeras. Quando a violência deixa de ser privada e se torna pública, o desconforto aumenta porque o silêncio se rompe.

Este não é um debate dirigido às mulheres. Nós já sabemos. Este é um chamado direto aos homens. Combater a violência de gênero exige responsabilização coletiva: rever comportamentos, interromper outros homens, respeitar limites sem negociação e compreender que o corpo feminino não é território disponível.

Enquanto a sociedade insistir em tratar a violência contra mulheres como exceção, e não como estrutura, nenhuma mulher estará plenamente segura em ambiente algum.

O que foi exibido não foi apenas entretenimento. Foi o espelho de uma sociedade que, desde que o mundo é mundo, defende esse tipo de atitude como normal.

E a reação a ele revela o quanto ainda falta para que esse reflexo seja enfrentado com a seriedade que exige.

Pergunte para suas colegas de trabalho, para sua irmã ou esposa quantas vezes já foram assediadas, abusadas de alguma forma. Você vai se surpreender com a resposta. Agora faça um exercício de consciência: desde a sua juventude, quantas vezes você agiu como “Pedro”. Tente enxergar a situação do lado de fora da sua bolha masculina protetora.

Feito isso, agora nos ajude a mudar essa realidade. Podemos contar com você?

Foto: Reprodução/Globo/X

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