Na madrugada de 28 de outubro de 2025, o governo do Rio de Janeiro, sob comando de Cláudio Castro, deflagrou uma megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha. Em poucas horas, o que deveria ser uma ação de segurança transformou-se em um cenário de guerra: ao menos 64 pessoas foram mortas, entre elas quatro policiais e 81 pessoas presas. Helicópteros sobrevoaram as comunidades, tiros ecoaram sem cessar, e moradores se viram encurralados entre facções, milícias e o braço armado do Estado.
Castro classificou a ação como um enfrentamento “contra o narcoterrorismo”. Mas a comemoração oficial trouxe à tona um velho debate: o da necropolítica como muito bem colocou Achille Mbembe, segundo ele, o poder do Estado se expressa pela capacidade de decidir quem pode viver e quem deve morrer. No caso do Rio, essa decisão tem cor, CEP e classe social.
“Essas são cifras de guerra”, afirmou o sociólogo Luiz Flávio Sapori, especialista em segurança pública. “Não basta entrar, trocar tiros e sair. Isso não é política de segurança, é política de morte.” A operação não se limita a um erro tático. É parte de uma estratégia de governo e comunicação política. A violência é performada diante das câmeras, transmitida ao vivo e usada como capital eleitoral.
Como explica Mbembe, “governa-se pela morte quando o Estado transforma o controle sobre quem morre em demonstração de autoridade”. E, no Rio, a morte é espetáculo político.
A cada operação de alto impacto, o governo reforça o discurso de força e de “ordem”, em sintonia com a retórica da extrema direita que ecoa nas redes: “bandido bom é bandido morto”.
Essa narrativa não busca resolver a criminalidade, mas alimentar o medo e, com ele, garantir o apoio de setores que veem na violência uma forma de moralidade.
Foi publicado na Anistia Internacional Brasil o seguinte:
“Trata-se de uma política do extermínio. A letalidade policial é estimulada e, ao mesmo tempo, premiada. Isso não produz segurança, apenas perpetua a exclusão e o trauma.” (Nota oficial, 29/10/2025)
Enquanto o Estado exibe cadáveres como troféus, a estrutura do crime permanece intacta.
Sabe-se que 60% do território do Rio de Janeiro está controlado por facções ou milícias formadas por ex-policiais, e que as operações nas favelas raramente atingem os verdadeiros centros de comando.
Os chefes do crime, assim como os chefes das milícias, não vivem nas favelas. Eles estão nos gabinetes, assembleias, empresas de segurança privada e contratos públicos que financiam e lavam dinheiro.
As incursões armadas nas comunidades, portanto, servem mais para encobrir do que para desmantelar essas conexões.
“Enquanto o Estado mata nas favelas, os verdadeiros donos do crime continuam em seus escritórios climatizados. É a periferia que morre, e o poder que lucra.”
— Bruno Paes Manso
O governo celebra o número de apreensões, mas evita divulgar a lista completa das vítimas porque há civis inocentes entre os mortos.
Entre os mortos estão os policiais Marcos Vinícius Cardoso de Carvalho (51), Rodrigo Velloso Cabral (34), Heber Carvalho da Fonseca (39) e Cleiton Serafim Gonçalves (42).
Esses homens foram colocados na linha de frente de uma guerra que não é deles. Servem como bucha de canhão de uma estrutura que alimenta o confronto, mas jamais toca os responsáveis de farda limpa e gravata.
Morreram cumprindo ordens de patentes superiores, enquanto os verdadeiros estrategistas da morte discursam em palanques sobre “coragem” e “honra” tudo para virar manchete eleitoral.
As ações de “guerra ao tráfico” são sustentadas por uma lógica que mistura política, polícia e marketing eleitoral. Cada corpo abatido é transformado em número, em sinal de eficiência, em estatística de campanha.
Mas o que realmente aumenta é o abismo entre o Estado e a população que ele deveria proteger.
A necropolítica, neste contexto, não é acidente, é método.
“Quando o Estado mata seletivamente, ele diz quem é digno de viver e quem pode ser descartado. E, ao fazer isso, reafirma hierarquias raciais e sociais que sustentam sua autoridade.”
— Achille Mbembe, em “Necropolítica” (2018).
O massacre do Alemão e da Penha não é um evento isolado, é o sintoma de um país que normalizou a barbárie.
Enquanto houver quem celebre a morte como solução, a democracia brasileira seguirá ferida.
A segurança pública só será possível quando a política deixar de mirar nos corpos negros e pobres e começar a responsabilizar os verdadeiros chefes: os figurões cariocas que operam o crime atrás das cortinas do poder.
Matar não é política. É desistir de governar.
Que Deus conforte os corações das famílias que tiveram seus entes assassinados para servir de pré-campanha para governo de estado.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Marilu Rodrigues Cientista política, professora, feminista, progressista e entusiasta por um mundo socialmente mais justo e igualitário. Redes sociais: Twitter: @MariluPamc, Instagram: @marilurcampos, Facebook: marilu.rodrigues.355


