Há artistas que não apenas cantam, eles fundam mundos. Lô Borges foi um desses raros seres que atravessaram a vida com a delicadeza de quem carrega um universo inteiro dentro das notas de saudade pujante. Porque a partida de Lô deixa-nos órfãos de uma voz, de uma sensibilidade, de uma esquina inteira de sonhos, não é apenas a notícia triste de um adeus: é o encerramento de um capítulo luminoso da música brasileira, e também da nossa própria história como público que ama, vibra e se emociona.
Lô nasceu em Belo Horizonte e cedo se vinculou a um grupo extraordinário de jovens músicos, essa galera que mais tarde viria a ser o lendário Clube da Esquina.
Naquele universo de Minas, ele ajudou a compor trilhas que cruzavam MPB, rock, jazz e regionalismos.
Como ele mesmo disse, refletindo sobre aquele álbum de 1972:
“Nossa música, mesmo tendo matizes diferentes, dialogava. Milton era o jazz, a bossa nova, a africanidade, a latinidade. Eu era o adolescente que amava os Beatles e os Rolling Stones.”
“Acho que foi uma conspiração do cosmos. Juntou pessoas certas, na hora certa e no lugar certo para fazer uma coisa cheia de inspiração, de liberdade criativa.”
E nessa mistura, nasceu algo atemporal…
Hoje, vendo tudo isso, é impossível não pensar que a “esquina” de que eles falavam era bem mais profunda que uma rua, era uma encruzilhada de alma, memória, desejo e arte. E Lô era o condutor dessa paisagem sonora.
Em 3 de novembro de 2023, estive no show dele no Sesc Belenzinho. Foi uma experiência sensorial, quase espiritual. Aquelas melodias pareciam atravessar o corpo como uma lembrança boa que não quer ir embora. Foi ali que me apaixonei por Lô e, junto com ele, pelo Clube da Esquina.
Naquele palco, percebi que a música é capaz de fazer o tempo parar. E que certas vozes não pertencem ao presente: pertencem à eternidade.
O menino prodígio de Minas que reinventou a canção brasileira lado a lado com Milton Nascimento com o disco “Clube da Esquina”, de 1972, um marco da música brasileira e mundial.
Era rock, era bossa, era jazz, era tudo junto. Como ele mesmo disse uma vez:
Daquela mistura nasceu algo maior que qualquer rótulo, foi uma estética da liberdade. O Clube da Esquina não foi um movimento organizado, foi uma conspiração do cosmos, como o próprio Lô dizia. Uma junção perfeita entre amizade, poesia e experimentação.
Um som que não envelhece
Em tempos de músicas feitas para durar segundos, as composições de Lô resistem como se tivessem sido escritas ontem.
“Tudo que Você Podia Ser”, “O Trem Azul”, “Paisagem da Janela”, “Quem sabe isso quer dizer amor”, “Girassol da cor de seus cabelos”, “A força do vento”, cada uma delas é um fragmento da alma mineira que virou canção universal.
Como afirmou a Funarte, em nota de pesar:
“Sua arte segue sendo luz e direção para quem acredita na força da criação e dos laços de amizade.”
“A música de Lô é algo transcendental. Indubitavelmente, sua obra e legado são inestimáveis. Acordes bem encaixados e harmonias atípicas fizeram de sua musicalidade algo sublime, gostoso de ouvir e tocar.
Somadas as letras de seu irmão Márcio, sua poesia tocada nos leva espiritualmente à um lugar quase que celestial, que não sabemos onde fica exatamente, mas que não queremos sair de lá. Obrigado Lô!” Comentou um fã na internet.
E essa talvez seja a grande lição que Lô nos deixa: a arte verdadeira não tem prazo de validade. Ela é feita para permanecer. É o som que volta sempre, como uma memória boa que a gente não quer esquecer.
A experiência e o legado
Lembro de olhar para o palco no Sesc Belenzinho e sentir que ali não era apenas um músico tocando, era um homem oferecendo sua alma. As pessoas batiam palmas empolgadas, quase caiam da cadeira de emoção a cada música, choravam, sorriam, se olhavam com ternura. Porque, de algum modo, Lô nos devolvia a fé na beleza.
E é essa a força que permanece agora, mesmo depois da despedida.
Ele nos ensinou que música é mais do que som: é espaço, é encontro, é lembrança. É o instante em que o coração e o tempo se entendem.
O trem que segue
A morte de Lô Borges não apaga sua presença; apenas muda o endereço onde ele mora. Ele agora habita nossas memórias, nossas playlists, nossos silêncios.
E cada vez que tocar “O Trem Azul”, é como se ele voltasse, sorrindo, para nos lembrar que a vida é feita desses instantes de pura emoção, dessas esquinas onde o amor e a arte se encontram.
Porque os sonhos… esses não envelhecem jamais.
Descanse em paz, Lô.
Obrigada por tanto.
Foto: Reprodução

Marilu Rodrigues Cientista política, professora, feminista, progressista e entusiasta por um mundo socialmente mais justo e igualitário. Redes sociais: Twitter: @MariluPamc, Instagram: @marilurcampos, Facebook: marilu.rodrigues.355


