O Brasil vive uma epidemia de violência contra mulheres que se aprofunda ano após ano e não por acaso. Dados oficiais mais recentes mostram números estarrecedores: em 2025, o país registrou 1.518 feminicídios, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia.
Esses números oficiais, no entanto, podem ser apenas a ponta do iceberg: um estudo do Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL) indica que, entre feminicídios consumados e tentados, o Brasil teve 6.904 vítimas em 2025, um crescimento de 34% em relação a 2024, com quase seis mulheres mortas por dia.
Ao olhar os dados estaduais, o cenário não melhora: no Estado de São Paulo, foram 27 mulheres assassinadas apenas em janeiro de 2026, um salto em relação ao mesmo mês de 2025. E mais: segundo a própria Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, o estado encerrou 2025 com 266 casos de feminicídio, alta de 8,1% em comparação com 2024, a maior marca desde o início da série histórica.
Esses números traduzem vidas dilaceradas, histórias interrompidas, famílias devastadas. Eles também expõem um problema estrutural que vai muito além da criminalidade individual: trata-se de um padrão social de violência de gênero que se alicerça em normas culturais que legitimam, invisibilizam e até romantizam a dominação masculina.
Não estamos falando de estatística. Estamos falando de projeto social.
Paralelamente a esse crescimento, expandem-se nas redes comunidades que difundem a ideia de que mulheres manipulam homens, que relações são “jogos de poder” e que a emancipação feminina representa uma ameaça. O chamado universo “redpill” não é homogêneo, mas parte dele opera com retórica de ressentimento, desumanização e hierarquização de gênero, além de articularem discursos que veem avanços femininos como vilania, e mulheres como agentes de opressão e não como sujeitos de direitos. Essas narrativas, ainda que nem sempre explícitas em violência física, naturalizam hostilidades e reforçam estereótipos que corroem a percepção do outro como humano.
Pesquisadores e especialistas em radicalização online já demonstram que ambientes digitais polarizados e rancorosos criam ecossistemas propícios para a desumanização de grupos inteiros, no caso, mulheres como coletividade. A diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Samira Bueno, alertou em evento público que a crescente violência é um sinal de omissão do Estado e reflexo de um ambiente social permissivo.
Resultados de mobilizações sociais recentes no Brasil evidenciam a tensão: em novembro de 2025, milhares de pessoas tomaram as ruas em protesto contra a crise de violência de gênero, impulsionadas por relatos extremamente brutais e recorrentes de ataques de parceiros ou ex-parceiros.
Comunidades digitais baseadas em ressentimento coletivo funcionam como câmaras de eco, reforçando visões distorcidas e legitimando discursos de ódio.
Não se trata de afirmar que todo homem que consome esse conteúdo se tornará agressor. Isso seria intelectualmente desonesto. Mas é igualmente ingênuo ignorar que a normalização da misoginia cria ambiente cultural permissivo para violência.
Não é mera coincidência que o aumento da violência de gênero ocorra simultaneamente à proliferação de discursos que legitimam a hostilidade contra mulheres. Quando a linguagem de desconfiança, fantasia de domínio e ressentimento circula sem contestação, ela alimenta, ainda que indiretamente, um caldo cultural no qual agressões deixam de ser exceção chocante e passam a ser vista como expressão de “direitos” ou “justiça” para homens insatisfeitos.
Essa é a raiz profunda da violência: não estão morrendo apenas corpos, está sendo corroída a base ética da convivência.
O que está em debate não é “opinião”. É segurança pública.
Liberdade de expressão não pode ser escudo para a promoção de discurso que incentiva hostilidade estrutural contra metade da população. Plataformas precisam ser responsabilizadas quando lucram com algoritmos que amplificam a radicalização.
Se há correlação direta em todos os casos? Ainda não temos uma pesquisa mais profunda sobre isso, mas há um ambiente cultural sendo alimentado.
E ambiente também mata.
O Brasil que queremos e o que precisamos fazer
Defender que a misoginia digital seja reconhecida como um vetor de dano social não é ataque à liberdade de expressão. É exigir responsabilidade das plataformas que monetizam e amplificam conteúdo que legitima prejuízo contra mulheres e crianças. É cobrar políticas públicas que: financiem educação de gênero nas escolas; treinem agentes de segurança e justiça para lidar com violência estrutural; fortaleçam linhas de denúncia e proteção eficaz, não cosmética; monitorizar redes para identificar discursos que encorajam hostilidades.
Reverter essa crise não é opcional: é imperativo civilizatório.
E vamos parar de fingir que isso é “caso isolado”.
Mulheres estão sendo mortas todos os dias. Todos. Os. Dias. E a sociedade segue debatendo etiqueta digital enquanto crianças enterram mães.
Não é exagero. Não é histeria. É estatística.
A cada novo feminicídio, surge o mesmo roteiro: “ele era trabalhador”, “foi surto”, “foi ciúme”. Como se ciúme fosse atenuante. Como se fosse amor. Como se ódio cultivado em fóruns e vídeos não tivesse consequência nenhuma no mundo real.
Sabe o que é revoltante? A gente tem que implorar pelo óbvio: mulheres não são propriedade. Não são prêmio de consolação. Não são inimigas a serem derrotadas.
Não dá mais para ser “neutro”. Neutralidade, neste cenário, é uma cumplicidade confortável.
Ou a gente encara a cultura que alimenta essa violência ou vamos continuar contando corpos e chamando de surpresa.
Proteger mulheres não é pauta identitária, não é guerra de gênero.
É mínimo civilizatório.
Chega.
E quem se incomoda com isso… deveria se perguntar por quê.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil



