Há discursos que são técnicos, escritos para não incomodar ninguém. E há os discursos que atravessam a pele da gente. O de Lula na ONU foi desses últimos. Foi um momento em que a história parou, respirou fundo e deu espaço para uma voz ecoar mais alto. Foi isso que aconteceu. Não foi apenas o presidente do Brasil falando; foi um Brasil que insiste em existir com dignidade, sem aceitar o papel de coadjuvante nas decisões ditadas por meia dúzia de países ricos. Não foi o Lula falando de política externa. Foi o homem que já atravessou a fome, a fábrica, a prisão, agora erguendo a voz diante dos donos do mundo para dizer: o Brasil não se curva. Ali, entre bandeiras e protocolos, ecoou a lembrança de que democracia não se importa com fronteiras. Que não é privilégio de países ricos. É conquista diária, arrancada à força por quem nunca teve garantias e lembrou ao mundo que o Brasil resistiu ao seu maior teste em que seu ex-presidente tentou dar um golpe de Estado, atacou as instituições, foi denunciado, investigado, julgado e condenado. Premissas essas que a ditadura, tão saudosa dos bolsonaristas, não permitiria que acontecesse. E esse não é um detalhe qualquer, é a prova de que ninguém está acima da Constituição. Enquanto alguns países se curvam diante de líderes autoritários, o Brasil mostrou que sabe punir quem conspira contra o povo. Lula, com serenidade e firmeza, transformou essa memória recente em recado: golpistas podem até tentar, mas aqui a democracia não se ajoelha. Outro momento histórico desse discurso, foi sua fala sobre a Palestina, Lula não citou números frios. Falou de gente. De crianças que não voltam da escola. De mães que enterram seus filhos com as próprias mãos. E a ONU inteira sentiu o incômodo de ouvir, de frente, que há um genocídio em curso e que calar é ser cúmplice. O mais curioso é que até Trump, mestre em ironizar e desdenhar, fez um gesto de reconhecimento. Não porque virou aliado, mas porque é impossível ignorar quando a verdade chega vestida de coragem. Naquele púlpito, o Brasil deixou de ser “país emergente” para ser espelho. Espelho de luta, de resistência, de humanidade. E Lula, como narrador desse espelho, mostrou que não é preciso falar inglês perfeito para ser entendido. É preciso falar com verdade. O discurso foi menos sobre o Brasil e mais sobre o que podemos simbolizar. Um país que não aceita ser satélite de Washington nem peça descartável em tabuleiro europeu. Um país que olha para a Palestina e enxerga humanidade, não geopolítica. Um país que, mesmo com todas as contradições, ousa dizer ao mundo: “Não vamos abaixar a cabeça.” O que vimos foi mais do que política: foi poesia em forma de denúncia. Foi um recado ao mundo de que, por mais que tentem nos reduzir ao papel de figurantes, o Brasil tem voz. E essa voz não pede licença. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Marilu Rodrigues Cientista política, professora, feminista, progressista e entusiasta por um mundo socialmente mais justo e igualitário. Redes sociais: Twitter: @MariluPamc, Instagram: @marilurcampos, Facebook: marilu.rodrigues.355


