De um lado, o projeto liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, que aposta na reconstrução do Estado, na ampliação de direitos e na melhora concreta da vida da maioria da população.
Do outro, a candidatura de Flávio Bolsonaro, que carrega a herança política do bolsonarismo e sinaliza um caminho de ajuste fiscal, contenção de gastos sociais e reposicionamento do Brasil sob uma inclinação alinhada ao interesse dos EUA em nossas riquezas naturais (pra variar).
Essa não é uma disputa de estilo. É uma disputa de direção
As pesquisas mais recentes mostram um cenário de empate técnico persistente. Lula aparece competitivo, muitas vezes à frente no primeiro turno, enquanto Flávio mantém uma base sólida herdada do bolsonarismo.
Isso acontece porque o Brasil vive um momento de rejeições altas, memória política recente e desconfiança generalizada. Parte da mídia tem influenciado neste quesito, além, é claro, do jogo rasteiro de parte de nomes influentes da direita que mantém o mal hábito de alimentar as redes com informações descontextualizadas, muitas vezes com manipulações falsas, a famosa fake News.
Esse padrão revela um fenômeno central: a eleição não está sendo definida por crescimento, mas por limites.
Ou seja, o jogo não é apenas conquistar votos, é impedir que o adversário cresça.
A ausência de uma alternativa forte à esquerda é um dos elementos mais decisivos para 2026.
Os dados mostram candidaturas com baixa densidade eleitoral (muitas abaixo de 5%) , o que sugere um cenário de concentração de votos progressistas em Lula, redução do risco de fragmentação eleitoral no primeiro turno.
Historicamente, eleições polarizadas tendem a favorecer quem consegue unificar seu campo político e, nesse aspecto, Lula parte de uma posição relativamente consolidada.
Enquanto a direita se reorganiza em torno de um sobrenome, a esquerda, até aqui, apresenta um movimento de concentração em torno de Lula.
Em eleições polarizadas, isso é decisivo. Fragmentação custa caro e, nesse momento, quem está mais unificado larga na frente.
A disputa também está profundamente ancorada na memória recente do país.
De um lado, Lula carrega a força simbólica de políticas sociais e crescimento econômico, a capacidade de diálogo internacional e reposicionamento do Brasil no cenário global
De outro, enfrenta a rejeição elevada, assim como Flávio Bolsonaro tem uma forte rejeição e dificuldade de expansão além do núcleo duro herdado de seu pai apenas. Não se consolida como uma figura influente sem esse fator.
É na economia que a eleição realmente acontece
No Brasil, a disputa se decide menos em debate ideológico abstrato e mais no cotidiano.
É o preço do mercado.
É o salário no fim do mês.
É a conta que fecha, ou não.
Medidas recentes do governo Lula caminham no sentido de ampliar renda e aliviar a pressão sobre as camadas médias e populares. Propostas como:
• ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil
• debates sobre mudança na escala de trabalho (como o modelo 6×1)
• políticas de valorização do salário e estímulo ao consumo
apontam para uma estratégia clara: colocar dinheiro circulando na base da sociedade.
E isso importa, porque historicamente, quando a economia melhora na ponta, o voto acompanha. Isso significa que medidas que impactam diretamente o bolso do eleitor tendem a ter efeito eleitoral relevante, principalmente no curto prazo.
Outro elemento importante é o reposicionamento internacional do Brasil.
A atuação recente de Lula no exterior reforça a e reaproximação com países europeus, a captação de investimentos internacionais e o reforço da imagem de liderança global
Esse tipo de movimento tem impacto indireto, mas relevante: fortalece a imagem presidencial e a ideia de estabilidade institucional, especialmente em contraste com períodos de isolamento diplomático que ocorreu no governo Bolsonaro.
Nos últimos meses, Luiz Inácio Lula da Silva tem reposicionado o Brasil internacionalmente.
Além disso, sua presença em eventos internacionais ligados à esquerda global reforça um capital simbólico importante: o de liderança reconhecida fora do Brasil.
Isso não é detalhe.
É poder de negociação, influência e capacidade de atrair recursos.
Dois projetos, duas direções
Aqui está o ponto central que define essa eleição:
De um lado, o governo Lula opera na lógica de expansão de direitos, aumento de renda e fortalecimento de políticas públicas como instrumentos de inclusão social. Do outro, o projeto associado a Flávio Bolsonaro sinaliza uma agenda de contenção fiscal que pode limitar o crescimento de áreas essenciais com propostas discutidas em seu entorno que incluem restringir ganhos reais em aposentadorias sem aumento real e vincular investimentos em saúde e educação apenas à inflação. Na prática, isso representa uma escolha: enquanto um modelo aposta na melhoria das condições de vida da maioria, o outro prioriza o ajuste das contas públicas, mesmo que isso reduza o ritmo de expansão de políticas sociais e abra espaço para maior protagonismo do mercado e de interesses externos sobre setores estratégicos. Traduzindo: Flavio propõe um projeto político “entreguista” aos EUA e sem colocar o povo no centro de seu projeto político (como era de se esperar)
Contudo, se os extremos já estão definidos, é o centro que decide.
E é aqui que a eleição pode virar.
O eleitor menos ideológico tende a responder a três fatores:
1. Percepção econômica imediata
2. Sensação de estabilidade
3. Confiança pessoal no candidato
Hoje, há sinais de que Lula consegue dialogar melhor com esse segmento em alguns cenários, mas essa vantagem é frágil e pode mudar rapidamente.
Existe um erro comum na leitura das pesquisas: focar só em intenção de voto.
O dado mais importante é outro:
quem consegue ser menos rejeitado cresce.
E essa será a chave de 2026.
A eleição tende a ser decidida não apenas por quem mobiliza mais apoio, mas por quem consegue reduzir medo, diminuir rejeição e parecer menos arriscado.
O que a esquerda precisa entender agora é que há uma lição clara nesse cenário, e que não basta ter razão política. É preciso ter estratégia.
A esquerda terá que operar em três níveis ao mesmo tempo:
-
Traduzir economia em vida real
Não basta falar de política pública. É preciso mostrar:
quem ganha mais, quem paga menos, quem vive melhor. -
Disputar emoção, não só argumento
A direita trabalha com medo e pertencimento.
Responder apenas com dado técnico não basta. -
Simplificar o conflito
Eleições são decididas por narrativas claras:
quem está do lado do povo e quem não está.
2026 não será uma eleição morna.
Será uma escolha direta entre:
expansão ou contenção
inclusão ou ajuste
Estado como ferramenta social ou Estado mínimo
Num país ainda profundamente desigual, essa escolha não é abstrata.
Ela define quem avança e quem fica para trás.
E, no fim, é isso que o eleitor vai decidir.
Que os jogos comecem.
Por Marilu Rodrigues



