Dez anos sem Madiba

Em 5 de dezembro de 2013 o mundo perdia Nelson Mandela, uma das maiores lideranças políticas do século XX.

Ele foi uma figura ímpar. Nelson Mandela lutou a vida toda, de diversas formas, contra um violento regime racista e colonial do nosso tempo. Se permitissem, ele usava a palavra, senão usava as armas. Escreveu muito, sempre denunciando ao mundo a situação de seu povo. Advogado, também defendeu os negros sul-africanos nos tribunais corrompidos. Quando o prenderam se tornou símbolo de liberdade e quando o soltaram virou presidente e líder mundial.

PRIMEIROS ANOS

Nelson Rlihlahla Mandela nasceu em 1918 em Mvezo, África do Sul. Madiba, como é chamado, é uma expressão que faz referência ao clã Thembu, ao qual pertence.

Cinco anos antes de seu nascimento, em 1913, a Lei de Terras Nativas determinou para pessoas negras a proibição de possuírem terras no seu país. Assim, 90% da população foi impedida de comprar terras fora das chamadas “reservas nativas”. O resultado foi que a minoria branca, ou menos de 8% da população, tinha a posse de 87% das terras. Os negros e nativos se transformaram em estrangeiros na sua própria terra. É nesse contexto que o pequeno Mandela vai crescer.

Em 1939 começou o curso de Direito para negros na universidade Fort Hare, que tinha apenas 150 vagas. Mas não demorou muito e foi expulso por liderar uma greve estudantil. Em Joanesburgo foi estagiário em um escritório de advocacia. Acabou seguindo seu curso de Direito por correspondência e em 1942, graduou-se pela Universidade de Pretória.

Mandela abriu o primeiro escritório de advocacia para negros no começo da década de cinquenta, na cidade de Joanesburgo. Uma atitude que não passou despercebida num país que estava diminuindo os direitos da maioria negra, numa escalada que chegaria no regime de apartheid.

Com a experiência do escritório ele vai aprofundar sua atuação política e começa a organizar campanhas populares e maciças que estimulavam a desobediência civil contra as injustas leis segregadoras.

placa na África do Sul determina área exclusiva para brancos

LUTA PACÍFICA, LUTA ARMADA

A resistência do povo sul-africano seguiu por décadas e se valeu de todos os meio possíveis para combater esse regime de terror. Revoltas, greves, protestos, luta armada, pressão internacional, pressão econômica. Meios pacíficos e também o uso da força. O fato desse sistema ruir somente nos anos 90 diz muito sobre sua perversidade, que contou com a cumplicidade das potências ocidentais.

Entre os muitos episódios violentos e repressivos, ‘o massacre de Shaperville’, bairro da cidade de Johanesburgo é considerado um ápice da repressão e um sinal de como seria difícil a derrubada do apartheid. Foi um protesto, realizado em 1960 contra a Lei do Passe, que obrigava os negros a usarem uma caderneta na qual estava escrito aonde eles poderiam ir.

Milhares de manifestantes marchavam, num protesto pacífico, quando polícia sul-africana conteve a manifestação com rajadas de metralhadora. Morreram 69 pessoas, e cerca de 180 ficaram feridas.

Mandela queima um passe obrigatório, em 1960

Não havia mais opção que não fosse a luta armada de libertação. Mandela e uma geração de militantes iniciaram a preparação e a organização de um braço armado para proteger a população e lutar contra as forças de opressão. Por esse motivo foi perseguido, classificado como terrorista e posteriormente preso.

TEMPOS DIFÍCEIS

Foram 27 anos na prisão e longos períodos em uma solitária. Apesar da promotoria ter pedido a pena de morte, o resultado final do julgamento decidiu pela prisão perpétua. A sua captura contou com a colaboração direta da CIA que o localizou e informou o regime. O Congresso Nacional Africano principal organização de luta contra as leis segregacionistas foi classificado como terrorista não apenas pelas lei nacionais, mas também por Inglaterra e EUA. Durante o período Margareth Thatcher e Ronald Regan as duas potências fecharam totalmente os olhos para o apartheid.

A primeira-ministra britânica colaborou tanto com o regime sul-africano que anos depois de sua morte lideranças conservadoras do seu partido foram obrigadas a dizer que suas posições nesse assunto tinham sido um erro. Por sua vez, os EUA mantiveram o FBI monitorando e espionando Mandela mesmo depois de sua libertação em 1990.

Ironicamente e para desgosto de Thatcher, a banda inglesa The Specials, gravou uma canção pedindo a liberdade de Madiba, composição que virou um hino e ajudou a popularizar e divulgar diversas iniciativas internacionais que aconteciam exigindo sua imediata soltura e o fim da segregação racial. ‘Free Nelson Mandela’ é o refrão da música, e também foi o lema de diversos cartazes, adesivos e atos políticos ocorridos em países do ocidente e do oriente.

No dia 11 de fevereiro de 1990, o maior símbolo de luta da população negra contra o racismo na África do Sul foi finalmente libertado. Era a maior vitória das últimas décadas e carregava a esperança que as coisas, ainda que lentamente, começariam a mudar.

MANDELA, BRASIL, BAHIA

As relações entre a cultura e a luta negra na África do Sul e no Brasil nem sempre são devidamente lembradas. Fabio Nogueira, professor adjunto da Universidade do Estado da Bahia disse ao Linha 8 que “as lutas anti-apartheid e pela libertação de Mandela na África do Sul tiveram decisivo impacto na formação do movimento negro brasileiro pós a ditadura militar, principalmente na formação do Movimento Negro Unificado – MNU, em 1978.”

Nogueira faz um importante paralelo entre os dois países ao lembrar que “a simbologia de um líder político de esquerda que lutava contra o apartheid foi uma referência para uma geração brasileira que também estava rompendo com a herança da ditadura militar e buscando se democratizar. No Brasil uma minoria branca controlava uma maioria negra usando a repressão e as armas, situação análoga a sul-africana.”

Com longa trajetória na militância política, Fabio Nogueira é Coordenador do Ija Imo – Grupo de Estudos do Marxismo Negro “Clóvis Moura” e fundador do Círculo Palmarino, além de militante da Ação Negra. Ele também afirma que para além de Mandela, “o Movimento da Consciência Negra liderado por outro importante militante e pensador da África do Sul, Steve Biko, que foi covardemente assassinado nos porões do apartheid, influenciou o que nós entendemos hoje como ‘consciência negra’, que aliás acaba de virar feriado nacional, uma antiga demanda do movimento negro brasileiro.”

Primeiros atos do MNU comparavam o Brasil ao apartheid sul-africano. (Foto: Jesus Carlos via Memorial da Democracia)

Talvez por tudo isso, a primeira vez que Madiba esteve no Brasil em 1991 tenha sido tão intensa, ganhando ares de visita histórica.

Um ano após sua libertação, o líder do CNA cumpriu uma agenda de nada menos que seis dias e sua passagem teve características de turnê de estrela pop. O país mais negro fora do continente africano o recebeu de braços abertos. Ele se encontrou com diversas autoridades de todas as colorações, organizações políticas, sociedade civil organizada e grupos culturais.

Simbolicamente, Mandela chegou no Rio de Janeiro. Foi recebido pelo então governador Leonel Brizola. Viajou por São Paulo, Bahia e Brasília. Ao ir embora, declarou-se “sufocado de tanto amor” no Brasil.

Mas na capital soteropolitana o encontro foi muito além das formalidades diplomáticas. Salvador parou por um dia para recebê-lo. Milhares de pessoas foram ao aeroporto lhe dar as boas vindas. Além dos encontros oficiais, esteve com grupos culturais da cidade, inaugurou uma estátua com seu busto e claro provou uma boa comida. No fim do dia fez um discurso em palco montado na simbólica praça Castro Alves. O evento foi acompanhado por mais de 50 mil pessoas.

Fabio Nogueira ressalta que “o dia 5 de novembro de 1991 foi um ponto alto do intercâmbio político cultural entre Bahia e África do Sul. Essa visita marcou muito o movimento negro baiano e até hoje Madiba está presente nos blocos afros como Ilê Aiyê e Oludum. Muitas composições falam de sua vida e fazem referência ao país sulafricano, sendo até hoje uma figura presente para as gerações mais novas.”

Ele voltaria em 1998, já como presidente de seu país em final de mandato, para uma visita oficial ao colega Fernando Henrique Cardoso. Na ocasião, recebeu uma comitiva do PT, liderada por Luiz Inácio Lula da Silva e também se encontrou com o Congresso Nacional.

Mandela com Erundina, Fleury e Brizola. No palco em discurso em Salvador e o público presente na Praça Castro Alves.

PASSADO E FUTURO

Dois acontecimentos que seguiam em direções opostas se cruzaram no ano de 1948.

Em 10 de dezembro, a recém criada Organização das Nações Unidas aprovava a ‘Declaração Universal dos Direitos Humanos’, documento referência até hoje. Seis meses antes, na África do Sul, uma coalização branca de extrema direita ganhou as eleições e implantou legalmente o regime de apartheid, no já segregado país que carregava a violência da exploração estrangeira, o roubo de terras dos nativos e uma das mais racistas e obscenas desigualdades sociais do planeta.
A África do Sul, aliás, não votou a favor da Declaração na ONU.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948

Entender o século XX passa pela África do Sul e pela figura de Nelson Mandela. O apartheid que durou quase cinquenta anos foi uma tragédia que nos revelou até onde pode chegar o projeto colonial capitalista. Nesse caso não encontrou limites morais ou humanos para a instalação da barbárie.

A colonização representou, literalmente, a tomada do país por brancos europeus financiados para controlar e repartir um território com muitas riquezas naturais. Essa ideologia da exploração sem barreiras ainda segue de muitas formas determinando a relação entre os países.

Infelizmente a herança do apartheid ainda se faz presente na África do Sul. Várias organizações sociais seguem denunciando a extrema desigualdade do país. Passados trinta anos da transição para a democracia muitos afirmam que, além do direito de votar, as condições de vida de milhões de pessoas seguem muito parecidas ao período de segregação racial.

Nelson Mandela com Fidel Castro, Yasser Arafat, Lula e Pelé.

Estudar a história da luta dos sul-africanos e de seus líderes políticos como Desmond Tutu, Steve Biko e Nelson Mandela é fundamental para nos inspirarmos em um povo que, mesmo abandonado em muitos momentos pelos olhos do mundo, não abriu mão de lutar por sua liberdade. É mais uma demonstração que, longe do mundo branco e europeu, o conhecimento pulsa e pode nos ajudar a encontrar caminhos nesse momento tão delicado para a democracia e para as conquistas sociais na maioria dos países.

Viva Madiba e seu exemplo.

Linha 8
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